Análise: Impasse no Irã expõe limites do uso da força na retomada do protagonismo dos EUA
Brasília — Pela segunda vez à frente da maior nação liberal do planeta, o presidente Donald Trump voltou à Casa Branca com um objetivo claro: recolocar os Estados Unidos no centro do tabuleiro internacional. A estratégia, ao menos até aqui, tem seguido um roteiro conhecido: assertividade, unilateralismo e uso recorrente da força como instrumento de política externa.
O impasse envolvendo o Irã, em parceria com Israel, é o exemplo mais recente, e talvez o mais emblemático, dessa abordagem. Ao apostar na escalada militar como forma de reafirmar liderança global, Washington reedita uma lógica que, historicamente, produziu mais instabilidade do que soluções duradouras. A crise atual sugere que o poder bélico, por si só, não é suficiente para reorganizar a ordem internacional.
Esse padrão não se restringe ao Oriente Médio. No campo econômico, a tentativa de conter o avanço da China no comércio global levou à imposição de tarifas de importação agressivas, atingindo parceiros comerciais e tensionando cadeias produtivas. A medida, embora alinhada a uma lógica protecionista, revela os limites de uma estratégia baseada no confronto direto em um mundo cada vez mais interdependente.
Na América Latina, o movimento em relação à Venezuela também ilustra essa diretriz. Sob o argumento de restabelecer a democracia e combater o narcotráfico, a ofensiva culminou na prisão de Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores. Ainda que o episódio represente uma ruptura significativa no regime venezuelano, seus desdobramentos permanecem incertos e levantam questionamentos sobre os custos políticos e institucionais dessa intervenção.
O conjunto dessas ações aponta para uma tentativa de reposicionamento global ancorada na coerção: militar, econômica e diplomática. No entanto, o cenário internacional contemporâneo é marcado por múltiplos polos de poder, crescente autonomia regional e redes complexas de interdependência. Nesse contexto, a imposição pela força tende a encontrar resistências proporcionais.
O impasse no Irã, tem mostrado isso. Um dia após dizer que avaliava desacelerar a guerra contra o Irã por considerar seus objetivos quase alcançados, o presidente Trump emitiu um ultimato para que a teocracia libere o tráfego pelo estreito de Hormuz em 48 horas, sob pena de ter sua infraestrutura energética destruída.
A nova ameaça do republicano foi publicada na noite de sábado (21) na rede Truth Social e remete ao nó que ele não consegue resolver: retomar o tráfego de navios pelo caminho que escoa 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do planeta. Já na segunda-feira (23), a poucas horas de vencer o ultimato que havia dado para o Irã reabrir o estreito de Hormuz, Trump informou na mesma rede social que havia adiado por cinco dias os ataques à infraestrutura energética que havia prometido fazer caso a teocracia se recusasse a aceitar suas demandas.
Por fim nesta quina-feira (26), Trump, anunciou que seu governo continuará suspendendo os ataques a instalações de energia iranianas por mais 10 dias. O prazo terminaria hoje.
“A pedido do governo iraniano, esta declaração serve para informar que estou suspendendo o período de destruição de usinas de energia por 10 dias, até segunda-feira, 6 de abril de 2026, às 20h, horário do leste dos EUA. As negociações estão em andamento e, apesar das declarações errôneas em contrário da mídia de notícias falsas e de outros, estão indo muito bem”, disse o presidente em nova publicação na Truth Social.
Os recuos do presidente americano têm sido frequentes, dado a imposição da independência comercial e regional dos atores internacionais. No caso do petróleo não apenas dos EUA mas de toda a cadeia global.
Portanto, a dificuldades em se obter êxito no Irã, não é apenas mais um episódio de tensão geopolítica. Ele funciona como um termômetro dos limites da estratégia adotada por Washington. Retomar protagonismo global exige mais do que demonstrações de poder: demanda articulação diplomática, construção de consensos e capacidade de liderança legítima, atributos que não se impõem, mas se constroem.